terça-feira, 14 de abril de 2009

O CRIME DO PADRE AMARO



"Ah, não tornaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Também ele agora tinha uma, toda sua, alma e carne, que o adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho de água-de-colônia! Era padre, é verdade...Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, l
ogo que não dê escândalo entre os fiéis, em nada prejudica a eficácia, a utilidade, a grandeza da religião. Todos os teólogos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituída para administrar os sacramentos; o essencial é que os homens recebam a santidade interior que os sacramentos contêm, e, contanto que eles sejam dispensados segundo as fórmulas consagradas, que importa se o sacerdote seja santo ou pecador? O sacramento comunica a mesma virtude. Não é pelos méritos do sacerdote que eles operam, mas pelos méritos de Jesus Cristo. O que é batizado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica igualmente bem lavado da mácula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isso lê-se em todos santos padres, estabeleu-o o seráfico concílio de Trento. Os fiéis nada perdem, na sua alma e na sua salvação, com a indignidade do pároco. E se o pároco se arrepende na hora extrema, também se não lhe fecham as portas do céu. Logo em definitivo tudo acaba bem, e em paz geral...- E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu café."
(...)
"...Ah! se fosse o tempo em que suprimia um homem com uma denúncia de heresia! Que o mundo recuasse duzentos anos, e o sr João Eduardo haveria de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amélia..."
(...)
"...A felicidade, padre-mestre era que a criança nascesse morta:
- Era um anjinho mais...- rosnou o cônego sorvendo a sua pitada"
(Trechos de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz).
Há tempos venho me deliciando com a leitura desse super-clássico da literatura portuguesa, aliás, de um valor indescritível, posto ser a primeira obra do realismo em nossa língua. Eça foi fonte de inspiração para Machado, e como este foi também um gênio, um monstro com uma pena na mão. À medida em que vamos nos deixando levar pela leitura, a sensação que se tem é que viajamos no tempo, transcendemos na história, assistimos aos fatos, participamos ativamente do enredo, nos emocionamos com o drama, nos revoltamos com as picaretagens de sempre, promovidas pela Igreja Católica.
Aliás, eu ia até falar desse livro antes, mas por medo da Bianca, resolvi não fazê-lo durante a Semana Santa. Mas agora, agora eu não posso resistir.
Em toda a minha formação, digamos, anticlerical, antilitúrgica, (ou se vocês preferirem atéia, materialista, fiquem à vontade), eu procurei me cercar de bíblias, alcorões, livros de autores renomados como o Richard Dawkins, Nietzche, Christopher Hitchens, Sam Harris e outros...Não é fácil se defender , quando simplesmente ousa-se querer apenas não acreditar em nada.
Bobagem! Bastava ler Eça, tão antigo quanto atual:
"Toda a vida do bom católico, o seu pensamento, as suas idéias, os seus sentimentos, as suas palavras, o emprego dos seus dias e das suas noites, as suas relações de família e de vizinhança, os pratos do seu jantar, o seu vestuário e os seus divertimentos - tudo isso é regulado pela autoridade eclesiástica (abade, bispo ou cônego), aprovado, ou censurado, pelo confessor, aconselhado e ordenado pelo diretor da consciência. O bom católico, (...), não se pertence; não tem razão, nem vontade, nem arbítrio, nem sentir próprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ele. O seu único trabalho neste mundo, que é, ao mesmo tempo, o seu único direito e o seu único dever, é aceitar esta direção; aceitá-la sem discutir; obedecer-lhe, dê por onde der; se ela contraria as suas idéias, deve pensar que as suas idéias são falsas; se ela fere as suas afeições, deve pensar que as suas afeições são culpadas."
(...)
"Meu rapaz, tu podes ter socialmente todas as virtudes; segundo a religião de nossos pais, todas as virtudes que não são católicas são inúteis e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja não contam. Se tu fores um modelo de bondade mas se não fores à missa, não jejuares, não te confessares, não te desbarretares para o senhor cura - és simplesmente um maroto. Outros personagens, maiores que tu, cuja alma foi perfeita e cuja regra de vida foi impecável, têm sido julgados verdadeiros canalhas porque não foram batizados antes de terem sido perfeitos. Há de ter ouvido falar em Sócrates, dum outro chamado Platão, Catão, etc. Foram sujeitos famosos por suas virtudes. Pois um certo Bossuet, que é o grande chavão da doutrina, disse que das virtudes desses homens estava cheio o inferno... Isso prova que a moral católica é diferente da moral natural e da moral social".

Em seu realismo absurdamente bem humorado e seco, Eça deslinda, desnuda toda a perversão e maldade do clero da época, já muito mais brando que duzentos anos antes, época do ferro e fogo da Inquisição.
No livro, toda a fúria da Igreja de uma cidade relativamente importante de Portugal recai sobre a cabeça de um rapaz que, enciumado, comete a estupidez de escrever um artigo em um jornal criticando os desmandos dos padres, entre os quais o tal do Amaro, que sob o seu nariz, seduz a sua noiva, à frente das beatas, da futura sogra, sem que ele possa fazer nada a respeito, nada!
Ah, quisera poder ler em alto e bom som a todos os beatos e beatas o Crime do Pe Amaro, de cabo a rabo!
Como defender a mesma instituição que, há tão pouco tempo, enfrentou nos EUA e em tantos outros cantos gravíssimas denúncias, mais tarde provadas, de pedofilia, a mesma Igreja que tantos matou em suas fogueiras, que fechou os seus olhos e templos ante à maldade de Hitler na Segunda Guerra Mundial, aquela que nos anos 80 provocou uma derrama no mercado financeiro mundial pelas falcatruas cometidas pelo Banco do Vaticano? O que dizer dessa Igreja que hoje condena quem usa a camisinha, quem toma a pílula anticoncepcional, que prega contra as experiências com as células-tronco, que podem vir a salvar milhões de vidas, que não quer a inseminação artificial, a fertilização "in vitro", o aborto de uma gravidez resultante de estupro? Que quer, enfim, a volta à Idade Média, às trevas, onde reinava absoluta, soberana?
"E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto, tecedeira de anjos...Com razão, quem prepara uma criança com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lágrimas...Mais vale tecer-lhe o pescoço e mandá-la direto para a eternidade bem-aventurada!"
"-Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros sintomas de razão - continuava o doutor - quando se torna necessário que ele tenha, para o distinguir dos animais, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis anos que não sabe ainda o be-a-bá tem a ciência mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas de Londres, Paris e Berlim! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus sistemas planetários; como apareceu na terra a criação; como se sucederam as raças, como passaram as revoluções geológicas do globo; como se formaram as línguas; como se inventou a escrita...Sabe tudo: possui completa e imutável a regra para dirigir todas as ações e formar todos os juízos; tem mesmo a certeza de todos os mistérios; ainda que seja míope como uma toupeira, vê o que se passa nas profundidades do céu e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espetáculo, o que lhe há de suceder depois de morrer...Não há problema que não decida...E quando a Igreja tem feito deste marmanj0 uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a ler...O que eu pergunto é: para quê?"
(...)
"E com um grande gesto, mostrava-lhes o largo do Loreto, que àquela hora, no fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passeavam, de cuia cheia e tacão alto, com movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era com o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação de indústrias moribundas...E todo este mundo decrepto se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar medraço, entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
Que pena, somente agora, aos quarenta e sete anos de idade, estar lendo o Pe Amaro, estar conhecendo mais a fundo Eça!
Se bem que, quem sabe, não seria necessário evoluir até aqui, para lê-lo? Assim como somente agora compreendo melhor a obra de Machado? Sim, sim, talvez seja melhor somente conhecê-los na intimidade agora, para poder sorvê-los em toda a sua sapiência, já em minha face adulta, em minha maturidade, em meu despudor. De que me adiantaria fazer deles íntimo em minha juventude, sem que as minhas idéias estivessem lapidadas, sem a paciência para pensá-los, para refletí-los, para estudá-los?
Não, melhor desfrutá-los agora, calmamente, desavergonhadamente, devagar.
O diacho, e não é a primeira vez que falo sobre isso, é que sinto cada vez mais nítida a exiguidade de tempo disponível que ainda me sobra na vida para a leitura, quando cotejado com a quantidade de bons autores que precisam ser lidos. Isso, sim, dói! Como fazer para selecioná-los, para não perder tempo, este tempo tão precioso, lendo porcarias! Ai, que aflição isso dá!
Minhas prateleiras de livros "por ler" crescem em proporção assustadoramente mais rápida que aquela "livros lidos" que parece engatinhar, encolher - e receio que tal proporção só fará piorar, visto que o amor que tenho pelos livros não se restringe apenas ao seu conteúdo, mas avança também ao objeto: sua forma, seu cheiro...Gosto de pegá-los, sentí-los, vê-los expostos...De forma que os compro, não paro de comprá-los. Impossível ainda para mim ser politicamente correto e doá-los, para que servissem a outras pessoas. Assumo meu egoísmo, não posso doá-los, não consigo. Eu os amo, e quem ama quer o objeto de seu amor perto de si. O amor é um sentimento egoísta.
Assim, enquanto Eça vai repousar em paz em uma de minhas amadas prateleiras, rapidamente me enamorarei promiscuamente por outro, que me conduzirá, por certo, a novos mundos, sensações, cóleras, angústias, aflições, alegrias e boleros.
O que perdem os que se distanciaram dos livros!!!!

domingo, 12 de abril de 2009

NA NATUREZA SELVAGEM

"A felicidade só é verdadeira quando é compartilhada"


Na Natureza Selvagem (into the Wild)
EUA, 2007
Direção: Sean Penn
Com Emily Hirsch, Vince Vaughn, Catherine Keener e Hal Holbrook


Baseado em uma história real (Sean Peen demorou vários anos para conseguir a autorização da família do personagem principal, Christopher McCandless, para começar rodar o filme), "Into the Wild" é uma bonita, triste e feliz lição de vida. Triste por ser um drama e feliz por ser extremamente eficiente em passar ao espectador a sua bonita mensagem, trabalhando, para isso, com os seus melhores sentidos; a fotografia belíssima (do diretor Eric Gautier, o mesmo de "Diários da Motocicleta", filme do diretor Walter Salles sobre Che Guevara) e a música, maravilhosa a cargo de Eddie Veeder, vocalista do Pearl Jam.

Christopher McCandless não é um garoto comum. Tampouco um garoto desajustado. Muito pelo contrário.

Criado por pais neuróticos, egoístas e absurdamente materialistas (mas que por isso pagarão um alto preço em suas vidas), nem por isso é um garoto-problema, psicótico, emo, dramático, etc. Nada disso. É dócil, carinhoso com a família, especialmente com a irmã, que faz a narrativa do filme, e até mesmo com os pais, em determinadas lembranças.

Se forma de forma brilhante, com notas boas o suficiente para ingressar em Harvard. É um apaixonado pela literatura, é apesar de sua pouca idade é já um erudito, conhecedor dos mais renomados mestres universais, muito citados ao longo do filme. Desapegado, recusa o presente dos pais, um carro novo pela sua formatura e o custeio de todo a sua formação superior.

Mas ele tem outros planos. Quer rodar o mundo, se misturar à natureza, ser parte dela.

Se desfaz de tudo o que tem, de todo o seu dinheiro - doa para uma instituição de caridade -, abandona o seu carro à beira da estrada e queima os seus documentos, deixa formalmente de existir. Tudo isso parece piegas, algo meio anos 60, mais à medida em que o filme avança a impressão se desfaz. Lembrem-se que o rapaz tem apenas vinte e três anos de idade.

Começa uma grande viagem pelos Estados Unidos, que é tão somente a preparação para o sonho maior, uma hibernação no Alasca, onde viverá da caça, da natureza, em seu estado mais selvagem.

Nessa viagem, vai conhecendo pessoas interessantíssimas, que vão moldando e mudando para sempre (e o para sempre, como diria Renato Russo, sempre acaba) a sua visão das coisas, a sua concepção de mundo. Mas não lhe bastam os sábios conselhos dessas pessoas. Ele precisa sentir na pele, ele precisa que a natureza que tanto ama lhe dê as respostas que ele tanto precisa.

Ele viaja em boléias de caminhões, em vagões de trem, em caiaques; trabalha em plantações, em colheitadeiras enormes, ou pilota fogões em lanchonetes de "fast-foods"; mora em desertos, em campos de nudismo.

E chega então ao Alasca, aos seus sonhos e às suas conclusões, que não são bem aquelas que ele esperava, e que também não são apenas as suas conclusões, mas acabam sendo as nossas conclusões também.

Embora tenha sido indicado para dois "Oscar", "Into the Wild" foi solenemente ignorado pela Academia de Cinema de Hollywood.

O que, é claro, não surpreende, vez que seu diretor é Sean Penn, "personna non grata" dos republicanos que dominam a indústria cinematográfica americana.

Inclusive, há uma cena do filme que mostra o "pateta-mor", "Bob-pai", George Bush, falando pela TV a favor de sua Guerra do Golfo, assim como faria, anos mais tarde o seu filho trapalhão sobre a Guerra do Iraque.

Não é, absolutamente, um filme "bicho-grilo", hippie, etc. É um lindo filme sobre a vida de um idealista, ingênuo e corajoso rapaz. Vejam.


segunda-feira, 6 de abril de 2009

ABSURDISTÃO

Trecho do livro Absurdistão, de Gary Shteyngart (Editora Rocco, 2008)



Dizem que o humor, ou melhor, dizem que fazer o humor é muito mais difícil que fazer o drama. Eu não duvido.

Não duvido porque acredito que há (sei que aqui estou generalizando, portanto quero deixar claro que respeito as exceções) muito mais inteligência no humor do que no drama. O drama é fácil, está escancarado na pobreza das ruas, na violência, na constante injustiça, na frieza do desamor e da inexorabilidade da morte. Difícil é tirar humor e conseguir fazer rir de todas essas mazelas (dizem, ou sempre disseram, que o brasileiro é craque em fazer isso. Para mim, não é nada, isso é estória, é balela). Ou conseguir rir, apesar de todas essas mazelas. Por isso é mais difícil. E, por isso, mais inteligente.
E, de todos os tipos de humor, talvez o mais engraçado de todos seja aquele em que conseguimos rir de nossas próprias desgraças. É daí que surgem os anti-heróis, que são os verdadeiros ícones do humor, como Carlitos, que considero um exemplo clássico no cinema; ou seu paralelo na literatura, o apaixonante Quixote de Cervantes.
Então eu repito: fazer humor é mais inteligente que fazer drama. Fazer humor de nosso drama é mais inteligente ainda.
Isso posto, eu quero falar do livro de um russo chamado Gary Shteyngart que li há bastante pouco tempo, "Absurdistão".
Gary faz parte de uma novíssima geração de escritores russos pós-perestroika-Gorbatchov, que têm a difícil e interessante missão de mostrar ao mundo a nova cara do que antes era a toda poderosa URSS. Se é que essa cara, de fato, existe. Para mim, está longe de existir. Está em formação.
Nascido em 1972, em plena guerra fria, na antiga Leningrado (hoje São Petersburgo), aos sete anos de idade mudou-se para os Estados Unidos, mais precisamente para Nova York, onde desde então reside.
E foi nos Estados Unidos que descobriu-se escritor, fez e faz carreira, ganhou o seu mais importante prêmio até agora - melhor livro do ano pelo jornal Washington Post (The Russian Debutante's Handbook).
A história contada em Absurdistão é mais ou menos a história de todo russo que vive, hoje em dia, uma forte crise de identidade. A Rússia vive uma forte crise de identidade. O autor vive uma forte crise de identidade (pois é russo, vive nos EUA, faz sucesso nos EUA, escreve sobre a Rússia).
E não é somente a Rússia, naturalmente, que sofre semelhante tipo de crise. Todas as antigas repúblicas soviéticas, agora órfãs da proteção do forte aparelhamento estatal da falácia comunista lutam neste exato momento para saber o quê e quem são. E vivem as suas revoluções, recheadas de líderes demagogos, etnias que não existem, religiões que lutam entre si, mesmos povos que lutam entre si em busca de um naco de poder. Entre tais repúblicas, uma delas poderia muito bem ser o Absurdistão de Shteyngart, seu fictício país, criado para dividir o palco de seu hilário, mas seríssimo livro. O humor fino e inteligente de quem faz ironia de sua própria desgraça.
A par da falta de identidade, da falta de democracia, estabilidade democrática e de uma sucessão desenfreada de conflitos, essas repúblicas, sem o menor preparo prévio e com os seus fundamentos culturais absolutamente fragilizados, recebem uma invasão do capitalismo com as suas armas coloridas mais selvagens, mexendo de tal forma com as pessoas, quase despidas de suas identidades, que as transformam em tristes fantoches das figuras cidentais mais bizarras. Mais ou menos como o que aconteceu com aquele jogador de futebol brasileiro, há muitos anos atrás, um dos primeiros a ir jogar na Europa. Passou por lá três ou quatro anos e voltou mudo. Não aprendeu a falar o idioma de onde passou a morar e esqueceu-se do português.
Assim são os absurdistaneses, assim podem se tornar os russos, mesmo com o seu vastíssimo cabedal de cultura e tradições. Podem acabar se esquecendo de sua vodka de tanto tomar "Black Label" falsificado.
Sorte deles que têm os autores da nova geração, como Gary Shteyngart que, com o seu Absurdistão, mesmo mantendo viva a sua literatura lá nos EUA e recebendo prêmios no Washington Post, com certeza estão ciosos de sua importante responsabilidade em perpetuar a exuberante herança literária que receberam de sua pátria-mãe.
"Misha Vainberg é o filho do 1.238º homem mais rico da Rússia, amante de comida e bebida fartas, rapper amador e amante de uma latina de South Bronx com quem sonha viver um dia em Nova York, caso o Serviço de Imigração Americano lhe conceda um visto. Isso, porém, não vai acontecer, pois o falecido pai de Misha matou um influente empresário de Oklahoma e é Misha quem paga a conta, exilado do lar americano que adotou. Sem conseguir sair da Rússia, ele sonha com a sua amada Rouenna e com o reino de Oz em Nova York.
Sua salvação talvez esteja na minúscula nação do Absurdistão, um país rico em petróleo onde um funcionário corrupto do consulado lhe venderá um passaporte belga. Mas, quando eclode uma guerra civil entre dois grupos étnicos rivais e um poderoso local nomeia o azarado Misha para o cargo de ministro de assuntos multiculturais, nosso herói se vê chafurdando em disputas políticas, lutando pela própria vida, apaixonando-se outra vez e tentando descobrir se ainda é possível ter uma vida normal no séc XXI."

domingo, 5 de abril de 2009

BEIRUT...










"Bebendo com duas pessoas, você não deve beber mais do que a que bebe mais, nem menos do que bebe menos. Assim a que bebe mais não te achará um sórdido abstêmio, nem a que bebe menos um bêbado inveterado. Ambas as conotações irão da que bebe menos para a que bebe mais e da que bebe mais para a que bebe menos. No meio - do copo - está a virtude."




Millôr Fernandes






Todos sabem que o pesadelo do bêbado, na posterior sobriedade, são as lembranças que aos poucos vão lhe dando conta das besteiras que fez naquelas horas em que esteve "em outras esferas". Melhor para ele é a amnésia alcóolica.




Pior para o amigo do copo é o que acontece àquele que se julga amigo das letras. Desconfio que a ressaca moral deste último é o dobro da daquele.




Pois também acontece ao (pretenso) escritor (bloguista, cronista, etc) acordar no dia seguinte, olhar o que escreveu no dia anterior, agora publicado em um jornal e agir como um bêbado de ressaca, apavorado: mas eu fiz isso?




Assim me senti outro dia ao reler o que escrevi sobre o Beirute.




A grande vantagem do blog sobre a vida (quem dera pudesse esta ser assim!) é que não satisfeito com que eu escrevera, eu simplesmente deletei!




Imagine a glória que seria apagar um porre!!!!




Mas como o som do Beirut é realmente muito bom, espero poder me redimir com aqueles que, como eu, também torceram o nariz para o que eu escrevi, por meio de uma nova resenha. Assim, literariamente sóbrio, refaço o que escrevi e agora jaz morto em apagado em algum arguivo defunto de meu computador.




Realmente, o Zach Condom, a alma do Beirut, é um fenômeno musical. Figurinha carimbada na cena "underground" do eixo NY-Londontown, nasceu na baixa Califórnia, em meio a toda aquela influência latina, mexicana.




Estudou na Santa Fé High School e, aos quinze anos de idade, na cidade que leva o mesmo nome, lançou o seu primeiro trabalho, um "lo-fi" denominado "The Joys of Losing Wight".




Sempre foi muito inquieto, algo esquisito, um braço menor que o outro, resultado de um acidente doméstico (más línguas dizem que tal acidente envolveria uma gilete, uma banheira...). Essa ligeira deformidade o impediu de tocar guitarra, como gostaria.




Mas, dono de ouvido absoluto e também de uma enorme curiosidade, tornou-se um multi-instrumentista, características que levaram a sua música ser repleta de sons pouco comuns, provenientes de tubas, ukeleles, trompas, trompetes, conchas gigantes marinhas, etc.




Inquieto, como disse, expandiu muito a sua influência musical viajando pelo mundo, principalmente pelo leste europeu e todos aqueles países eslavos, conhecidos por sua enorme melancolia e romantismo exagerado, que nos faz lembrar aquelas tabernas fumacentas, com aqueles sujeitos de bigodes enormes com enormes copos nas mãos, chorando, olhando para as mulheres amadas de longe, cantando por elas, e por aí vai...Aliás, se vocês se derem ao trabalho de procurarem no Youtube pelos vídeos do Beirut (e são muitos) verão exatamente o que estou falando em alguns deles.




Some-se a isso uma ascendência européia, mais especificamente francesa, língua que domina e que chega a cantar em várias canções.




Seu trabalho, portanto, é um "mix" delicioso, exótico, de tudo isso, que eu detestaria ter de rotular de qualquer forma, chamando-o de qualquer nome, classificando-o de qualquer forma.




Seus primeiros CDs, "The Flying Club Cup" e "Gulag Oskertar", o primeiro mais lírico, e segundo, digamos, mais "eslavo", já pode nos dar um belo exemplo de tudo o que falo. Infelizmente, não há nenhum CD nacional do Beirut. Só encontramos, e com facilidade, mas muito caros, os importados. Mas valem a pena.







A Rede Globo, porém, incluiu em uma de suas minisséries - mais precisamente, Capitu - uma das músicas mais belas do Beirut, de seu EP "Lon Gisland", chamada "Elephant Gun". Fizeram um clipe maravilhoso usando essa música e outra do Black Sabbath, usando uma ballet sensacional, super-moderno. Vale a pena conferir. Está no Youtube também.




Até onde eu sei, essa foi a única vez que houve uma relativa popularização do Beirut aqui no Brasil. Mas lá fora, os caras estão arrebentando. Às vezes, chego a desconfiar da eficiência da globalização.




Há bastante pouco tempo, foi lançado lá fora "The March of Zapotech", a última jóia de Zach Condom.




Trata-se de um CD duplo, dois EPs, digamos assim.




O primeiro tem a ver com tudo o que ele fez até hoje. Há gravações ao vivo em lugares, praças no México, muito legal.




O segundo CD, que denominou "Realpeople Holland", porém, é surpreendente: o cara resvalou agora, com toda a sua competência, para as bandas do eletrônico. Só por curtição? Não sei.




Por isso, por todo o seu ecletismo, eu considero o Beirut uma das "vanguardas das vanguardas" da cena musica mundial moderna, até onde vai, naturalmente, o meu parco e modesto conhecimento.




Essa a minha dica de hoje.




Bon apetit!

sexta-feira, 27 de março de 2009

De Schopenhauer, com carinho.


Sexta-feira, 27 de março de 2009.



Sempre haverá meios de resistir à enorme pressão exercida sobre nós pela indústria crescente em torno do mercado da auto-ajuda, principalmente na literatura. E sempre será bom fazê-lo. Eles estão nas listas dos mais vendidos, nas colunas especializadas em jornais, nos programas de televisão, os "experts" desse ramo estão sempre no topo. Às vezes me pego pensando: pôxa, esses caras devem ser os mais bem-sucedidos, ricos e felizes homens do planeta...pois não é exatamente com ser assim o que eles ensinam? Não se espera de um professor de cirurgia saber extrair um apêndice? De um de matemática resolver uma inequação?

Uma boa forma, eficiente, de resistir a essa pressão, e confortar a nossa alma, tão combalida em tempos tão massacrantes, é recorrer à filosofia, à boa filosofia, a filosofia dos grandes mestres. Como Arthur Schopenhauer, filósofo alemão que viveu entre os anos de 1788 a 1860. Há um livro, denominado Aforismos para a Sabedoria de Vida (Ed. Martins Fontes, 2ª Edição, 2006) que faz parte de sua obra tardia e que entusiasticamente recomendo àqueles que, de forma saudável mas na fonte errada, buscam na fonte errada matar a sua sede (é claro que há exceções).

Dias atrás, como sempre faço, passei os olhos por alguns de seus capítulos, e foi como se recebesse uma lufada de ar fresco, de juventude, no rosto. Vou tentar repartir aqui com vocês alguns trechos que destaquei e tecer algumas impressões minhas. Se for de alguma utilidade à sua vida, ganharei o meu final de semana; se não, como disse Brás Cubas, "pago-te com um piparote, e adeus".

"O mundo no qual cada um vive depende da maneira de concebê-lo, que varia, por conseguinte, segundo a diversidade das mentes. Conforme estas, ele será pobre, insípido e trivial, ou rico, interessante e significativo".

E não é? Nós construímos o mundo que queremos para nós. Esse pode ser alegre ou triste, e não estou aqui falando de histórias (ou melhor, estórias) da carochinha. Nós podemos ser otimistas, e não sermos bobos; podemos ser realistas e não sermos chatos; podemos até nos dar o luxo de ser pessimistas e não trágicos. O que não podemos fazer, contudo, é incomodar, como nossa visão de mundo, o mundo de nossos amigos, colegas, parentes, empregados, etc. Pode ser óbvio, mas o que é óbvio não tem que ser redundante.

"Na vida também é assim: as diferenças de posição e riqueza fornecem a cada um o seu papel a ser representado, ao qual, porém, não corresponde absolutamente uma diversidade íntima de felicidade e contentamento."

Por favor, não interpretem mal o que está dito aqui e não antecipem as suas conclusões, pelo menos até lerem o texto até o seu final. Prometo que não vai doer tanto assim.

Não se trata de mais uma daquelas "sentenças-clichê" "água-com-açúcar" do tipo "dinhero-não-traz-a-felicidade". É algo, podem cre, muito, mas muito mais profundo que isso.

Ninguém aqui é bobo. Todo mundo sabe que dinheiro é bom, é muito bom, embora eu não goste nem um pouco dele. Tanto é que eu nunca o tenho perto de mim. Ele não para quieto em minha mão. Queima. Gasto. Gasto logo. Some. Voa. Escafede.

Por isso, eu jamais serei rico. Estou tranquilo e conformado em relação a isso. Eu jamais terei em mãos uma quantidade de dinheiro maior que aquela que sou capaz de gastar.

Schopenhauer quer falar em "diversidade íntima de felicidade e contentamento". O buraco é mais embaixo.

"...assim também é com o homem. Sua individualidade determina de antemão o grau de sua felicidade possível. Em especial, os limites de suas forças ntelectuais estabeleceram, de uma vez por todas, sua capacidade para os deleites elevados.

Se eles são estreitos, então todos os esforços do exterior, tudo o que os homens e a sorte fizeram por ele não podem conduzi-lo para alem do grau de contentamento e felicidade humana ordinária e meio animalesca. Ele fica dependente do deleite sensual da vida social cômoda e alegre, da sociabilidade reles e de distrações vulgares. Mesmo a educação, embora consiga alguma coisa, não pode contribuir muito, no todo, para a ampliação daquele círculo. Pois os deleites mais elevados, mais variados e mais duradouros são os espirituais; por mais que na juventude possamos nos enganar a esse respeito, eles, todavia, dependem pri€cipalmente das faculdades inatas. Portanto, a partir disso, fica claro o quanto nossa felicidade depende daquilo que somos, de nossa individualidade; enquanto, na maior parte das vezes, levamos em conta apenas a sorte, apenas aquilo que temos ou representamos. Mas a sorte pode melhorar. Além do mais, quando há riqueza interior, não se lhe pedirá muito. Em contrapartida, um simplório permanecerá sempre um simplório, um bruto obtuso, sempre um bruto obtuso até o fim, mesmo se estivesse no paraíso e cercado de huris."

(huris=segundo o Alcorão, são belas virgens que desposarão, no paraíso, os fiéis muçulmanos)

É o velho ditado: "Deus não dá asas a cobras". Quem não conhece o tipo? O cara tem grana. Às vezes, é cheio dela. Às vezes, nem tanto. Curte carros, ou anda em bons carros; curte roupas, ou anda em boas roupas; curte vinhas, ou bebe bons vinhos. Uma coisa não leva necessariamente à outra. Na maioria das vezes, nem sabe por que isso ou aquilo é bom. Sabe o que é caro ou barato.

Quem não conhece o famoso enochato? Aquele cara que senta contigo em um restaurante, passa quinze minutos olhando a carta de vinhos com a mão no queixo, franze a testa, aperta o olho uma, duas vezes, olha fixamente para um ponto infinito perdido no teto e chama o sommelier. Pede uma garrafa. Ela é aberta, a rolha lhe é entregue. Ele a examina, lhe passa, toma-a de volta, examina, cheira, e fica com ela. Coloca na bolsa da mulher. A taça lhe é entregue para a prova. Ele a levanta, examina. Inclina-a delicadamente, observa a lágrima, você já está espumando de vontade e de sede, já tomou quase todo o seu copo d'água. Ele mete o nariz na taça, experimenta o aroma, fecha os olhos, faz um semblante séri0, franze a testa. É o próprio Renato Machado, só que totalmente afetado. Algo não vai bem . Repete o processo. Você bebe mais um gole de água, a tensão aumenta. O sommelier sua. Mete o nariz na taça de novo. Ele devolve o vinho. Você pede uma coca zero.

E quem não conhece o "travelchato"? Ora, o "travelchato" está presente, hoje em dia, em todos os eventos, em todos os jantares, em todas as reuniões. É o tipo de sujeito cuja única área de interesse possível se restringe a viagem e hotéis. E, naturalmente, preço de coisas, "gadgets", eletrônicos e câmbio. O infeliz passa absolutamente a noite toda falando apenas de viagem, viagem, viagem, hotel, hotel, hotel. E vai reunião, vem evento, vai jantar, o cara ainda está falando sobre a mesma merda. E gasta. Como gasta. Não tanto quanto a paiência alheia...mas gasta!

O que acontece, então, com essa gente?

Não são pessoas ruins, não necessariamente. Às vezes, são ótimos pais, filhos, irmãos, sobrinhos, trabalhadores, etc.

Mas são pessoas extremamente tediosas. Que de repente, preocupam-se demais com as maneiras possíveis de ganhar dinheiro, e de menos em como gastá-lo. Pode ser? Pode.

O cara do vinho, talvez, escolheu aquela garrafa (fica entre nós) por causa do preço (ah, vai dizer que você não sabia que eles fazem isso?). E de repente andou fazendo um cursinho rápido de degustação, leu alguma coisa em revistas da moda naqui e acolá e voìla!!! Faz pose de baca e devolve a pôrra do vinho.

O cara do hotel de viajar. É a vida dele. E ele conhece tudo de hotel. Gosta de camas boas, de andar sem meias sobre o carpete perfumado e espesso e macio, envolvido pelo maciíssiomo monogramado, quiçá até com as letras de seu nome. Adora toda a "necessaire", as toalhas, o frigobar, alucina com tudo aquilo.

Claro que prefere Tio Sam ao Velho Mundo. Lógico que não fala inglês. Pra quê, língua de dólar é universal! O dólar fala por ele e por si. Evidente que sabe a marca da TV plana de seu apartamento, mas não sabe o nome do autor da assinatura da tela de milhões de dólares exposta no saguão do hotel, um tal de Warhol, coisa assim.

Gosta mesmo é de filet com fritas, Century 21. Não tem idéia da história da cidade em que está. Quem comanda, o governador do estado. Mas conhece os shoppings, as lojas, os brinquedos, os parques...todas as grifes, todos os parques, todos os brinquedos.

E não são felizes, ambos? Claro que são! Incomodam alguém? Relativo. Se ficassem quietinos, na deles, tiudo bem. Mas não. Falam alto (ah, um dia ainda falarei sobre isso aqui). Falam alto. E sempre te perguntam o que você vai fazer em sua própria viagem. Você suspira, inspira e esponde. E ele enciclopedicamente lhe diz: aquilo não presta.

Então, lembrando Schopenhauer: "os deleites mais elevados, mais variados e mais duradouros são os espirituais".

A nossa felicidade, assim, está que somos, e não no que temos.

Eles são felizes, mas a felicidade deles está limitada ao que eles têm.


"O fato de o subjetivo ser incomparavelmente mais essencial do que o objetivo para a nossa felicidade e nosso deleite se confirma em tudo: desde a fome, que é a melhor das cozinheiras, passando pelo ancião,nanolhar com indiferença a deusa do mancebo, até chegar ao ápice, na vida do gênio do santo. Em especial, a saúde supera tanto os bens exteriores que, em verdade, um mendigo saudável é mais feliz que um rei doente."

E aí, não é lindo?

Fico especialmente à vontade para falar deste tema, pois tenho duas filhas, uma de treze e outra de onze anos, a Maria Eduarda e a Rebecca. Duas coisas lindas, gatíssimas, descoladas, educadas, etc, etc,etc.

Estão bem melhores agora. Mas até bem pouco tempo atrás, era uma guerra fazer com que elas comessem.crever muçarela, acho asqueroso

Se formos ao MacDonald's qualquer dia desses à tarde, vai ser engraçado observar a galera comendo. Todos os sanduíches antes são abertos para inspeção. Começa-se um minucioso processo de seleção do que vai ou não ser comido. Comíveis e descartáveis. As caras de nojo são tantas que nos perguntamos: o que estamos fazendo aqui? Eles não me encheram o o dia todo para vir para cá ? Muitas vezes os últimos superam os primeiros. A felicidade deles contrasta com a nossa frustração.

O mesmo acontece em pizzarias ( me vê uma calabrezza?????? Muzzarellla para um lado ((não me faça escrever muçarela, acho asqueroso)), calabrezza para outro), em restaurantes (azeitonas, cebolas, palmitos...). Mas acontece sempre, desde que considerada uma única particularidade: apenas da classe média para cima.

E por quê? Porque a fome, escreveu Schopenhuer, há duzentos anos atrás, é a melhor cozinheira.

Estou lendo um livro muito interessante. Mais adiante comentarei. Seu nome é "Absurdistão". De um jovem autor russo, nova geração, chamado Gary Shteyngart.

É sabido que depois da queda do regime comunista, especialmente da Rússia como superpotência, houve por lá um problema seríssimo. A par de todo um grave empobrecimento de toda a população, que de uma hora para outra deixou de contar com a cumplicidade estatal, essa mesma população sofre um gravíssimo problema de identidade cultural. Sua nação foi fragamentada em diversas repúblicas e subrepúblicas.ao descrever uma cena em um

Nada mais fértil à entrada da massificante cultura norteamericana do que uma nação em crise cultural.

E Gary Shteyngart é muito feliz descrevendo uma cena em um MacDonald's na capital da hipotética República do Absurdistão: uma família inteira, seis pessoas, em torno de uma pequena mesa, dividem em pequenos pedaços iguais um hambúrguer. O país é pobre, porém rico em esturjão, famoso pelo seu maravilhoso caviar. Barato e abundante ali, mesmo aos mais miseráveis. Escorrem as sobras nas ruas.

Mas o que querem mesmo é o hambúrguer.

Do MacDonald's.

Ninguém divide ou descarta o picles.

"Um homem espiitualmente rico, na mais absoluta solidão, consegue se divertir primorosamente com seus pensamentos e fantasias, enquanto um obtuso, por mais que mude continuamente de sociedades, espetáculos, passeios e festas, não consegue afugentar o tédio que o martiriza. Um caráter bom, moderado e brando pode sentir-se satisfeito em circunstâncias adversas, enquanto um caráter cobiçoso, invejoso e mau não se contenta nem mesmo em meio a todas as riquezas."

Porque imaginem só o seguinte: lembram-se do cara dos hotéis, das viagens? Imaginem que ele esteja todo bonito, agora em Paris, ao invés de Miami, seu "habitat" natural.

Coloque também, a quarteirões de distância, um digno professor de história melhor P e H maísculos), um Professor de História, de Filosofia - sem nehum desmerecimento, pelo contrário: mas é sabido que não ganham o que merecem, Coloque-o lá, perto de nosso chato.

O primeiro irá à Torre Eiffel, à Montaigne (Vuitton, Channel, Cartier,etc,etc), Versailles; o segundo irá ao MacDonald's! - economizar uma graninha para ir ao d'Orsay no dia seguinte.

O pobre é espiritualmente rico; o rico é espiritualmente pobre.

Há uma chopperia em minha cidade que eu e a Bianca chamamos de "mais-ou-menos". O serviço é "mais-ou-menos". A comida, "mais-ou-menos". Tudo então é "mais-ou-menos"".

Mas é muito tradicional. Todo mundo da cidade vai.

Se diverte muito. Eu vou lá há muitos anos. Abro o meu jornal revista, almoço, dou gargalhada com os bebuns, tem palyboy, bebun, milionário, senador, debutante, noivo, bicheiro e cantor.

Fico por ali e a vida também.

Mas abriram uma "dellicatessen" do lado.

Seu dono teve a idéia de homenagear a "beauty people" da cidade.

Então ele caprichou: lançou umas mesas com um tampo de mármore preto, umas cadeiras de vime e espaldar alto, uma coisa meio "Plillip Stark", enfim, o máximo. Pôrra, do lado do "mais-ou-menos".

E aí que os garotos muito ricos e muito entediados gostaram do lance, claro, e começaram rapidinho a sentar ali. O dono vibrou.

De repente, eles começaram a chegar à tarde, pediram vinhon(ô...amigo!!!!!!me vê aquele de quatrocentos reais!!!!!!!!!!!), fumaram um charuto, estacionaram seus BMW's e Audi's e suas C63 (aqui a gente conhece o que fala!!!).

Ocorre que são extremamente jovens, e aquelas cadeiras, e aqueles vinhos, as camisas-pólo, os óculos Prada, os charutos, os carros, tudo isso se lhes dá um aroma tão tedioso, mas tão tedioso, que sinceramente...gostaria de ser muito pobre e gostar de ter o péssimo gosto de dançar funk.

Ai, a inveja: sempre alguém terá sempre a dizer algo sobre ela.

Eu me lembro o que me disseram.

O pior invejoso não quer ter o que você tem.

Ele não quer que você tenha o que tem.

Beijão. Na próxima, falarei sobre Beirut,tá?

Bjs.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Quarta-feira, 25 de março de 2009.

"É tolice cometer injustiça" - A injustiça que fazemos é bem mais difícil de suportar do que a injustiça que alguém faz conosco (não examente por razões morais, note-se bem-); o autor é sempre aquele que sofre, quando é suscetível a remorsos ou tem a percepção de que, mediante seu ato, armou a sociedade contra si e se isolou. Por isso devemos, já por conta de nossa felicidade interior, ou seja, para não sermos privados de nosso bem-estar, independentemente do que pedem a religião e a moral, tratar de não cometer injustiça, mais ainda que de não sofrer injustiça: pois nesse último caso temos o consolo da boa consciência, da esperança de vingança, de compaixão e de aplauso dos justos, até mesmo da sociedade inteira, que tem medo de quem fez o mal. - Não são poucos os que entendem do feio auto-embuste que é transmutar toda injustiça que fazem numa que lhe é feita por outra pessoa, e reservar-se o direito excepcional da legítima defesa para desculpar o que eles mesmo fizeram: para assim carregar mais facilmente o seu fardo.


Nietzche


O que acho mais apaixonante em Nietzche é a grandeza de sua lucidez, e também a sua grandeza na lucidez. A sua total ausência de fanatismo de qualquer espécie.
Aqueles que o desconhecem costumam chamá-lo pessimista. Nietzche assusta muito aqueles que possuem formação alicerçada em axiomas. Muitas vezes, incapazes de argumentar racionalmente, lançam mão do que estiver a seu alcance e passam a rotulá-lo disso ou aquilo. Mas é inegável a elegância de seu raciocínio, a beleza de sua filosofia.
Esse notável filósofo alemão sempre foi crente à vida e à razão.
Ora, por que não devemos ser injustos?
Nós não devemos ser injustos porque, assim agindo, estamos contrariando alguma lei superior? Por que seremos castigados por isso?
Não!
Nós não devemos ser injustos por um singelo motivo: é uma tremenda burrice!
Eis que, sendo injustos, abrimos em nós a possibilidade do remorso e do constrangimento de um dia nos envergonharmos terrivelmente pela injustiça que cometemos por acharmos que talvez estivéssemos levando vantagem em alguma coisa (a famosa "lei de Gérson"). Ontem mesmo, pela TV, em jornal do horário nobre, vi um patético dirigente de órgão público desmentir absolutamente tudo o que havia dito dias antes na mesma rede de TV, algo totalmente contrário.
Ele foi injusto com tanta gente! Deixou tanta gente chateada, "só para ficar bem na fita" por alguns instantes com os seus superiores, com a imprensa que o pressionava, cheio de amor pelo cargo que ocupa. Não previu que dias depois teria que desdizer tudo que disse. Não leu Nietzche.
Como diz o filósofo, ao injustiçado resta sempre os bons olhos da opinião pública, que o adora (quem não conhece os "injustiçados profissionais", "os perseguidos", sempre se lamentando por tudo?), e o conforto da boa consciência, além da saciedade provocada pela vingança que, mesmo quando não desejada, acaba ocorrendo, mais cedo ou mais tarde.
Por isso Nietzche diz que é pior cometer injustiças do que ser injustiçado.
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Ontem, então, foi a primeira publicação deste blog. Como não poderia deixar de ser quando fazemos algo para ser publicado, tudo o que escrevemos parece estar horrível. Desconhecemos os limites do que deve ou não ir ao ar.
Quando lemos depois a página, já na tela, coramos de vergonha. Creio que todos os que escrevem ou passam ou já devem ter passado por isso. Depois eles ficam sem-vergonha.
Já vi atores dizerem que não conseguem se olhar na TV, não conseguem ver os capítulos de novela (bem, isso é até compreensível).
O Graciliano Ramos, preso, ficou muito bravo com a sua família, que precisou publicar um livro seu, já acabado mas ainda não-autorizado, para se sustentar. Disse depois que o livro era uma porcaria, que se pudesse teria cortado a metade do texto. Tratava-se de Angústia, uma de suas obras-primas.
Ou seja, ninguém está satisfeito com o que faz. E se o grande Graciliano não estava com seu Angústia, o que poderá dizer esta reles titica informatizada que cá escreve, não é mesmo?
Mostrei ao meu alter-ego e ainda única seguidora, Bianca, e combinamos que esperaremos um pouco a mostrar às pessoas, até que peguemos mais o jeito.
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PEIXE DO DIA: DEERHUNTER - MICROCASTLE - EUA,2008
O Deerhunter é um quinteto californiano que poderia ser classificado, se eu estivesse a fim de classificá-lo, de "noise pop".
Mas para mim, a grande sacada, o mais bacana dessa novíssima geração de novíssimo músicos que trafegam com desembaraço entre teclados, guitarras e computadores é justamente a quase total impossibilidade de rotulá-los. Em um trabalho como o Microcastle, ouve-se sucessivamente uma deliciosa balada dos anos 70, um punk meio dark lá dos anos 80, um blues, algo meio psicodélico...é uma viagem por muitos estilos, sem a preocupação de querer definir-se em qualquer um deles, uma liberdade de criação que tem tudo a ver com a própria liberdade artística que deve premiar o talento. Que somente enriquece o trabalho. E o Deerhunter conseguiu fazer um trabalho muito rico com o seu Microcastle.
Temos em mão, antes de mais nada, algo muito gostoso de ouvir. Algo que pode servir de fundo musical quando a galera for em sua casa tomar umas, ou então algo que você põe bem alto para "viajar" por quase uma hora de muito som.
E a viagem começa com Agoraphobia, uma harmonia bem cuidada, combinada a um ritmo envolvente, tipo anos setenta. Bom para ouvir tomando um campari, usando um terno verde-limão. Emenda com um punk-sujinho pescado lá do meio dos anos 80 dealgum inferninho de Dover, Never Stop. Desce bem com um daqueles chopes enormes, pretos, tirados daqueles balcões dourados, em meio àqueles ambientes esfumaçados, loucos...
Mas já bebemos muito, então melhor relaxar, ficarmos "viajanões ao som das psicodélicas Activa, Green Jacket e Calvary Scars. Só para curtir a onda...
Depois, é só se jogar na lama no batidão Nothing Ever Hapenned, uma fortíssima linha de baixo e vocais, refrão repetitivo e grande parte instrumental...delícia de música! Então, surpreendentemente, um blues bem tirado, Saved Old Times.
These Hands dá aquela acalmada, necessária para nos preparar para o "grand finale", que vem estiloso e cheio de esquisitice em Twilight Carbon Lake. Depois é correr para o abraço.
O Deerhunter, com Microcastle, atinge a maturidade.

terça-feira, 24 de março de 2009

Terça-Feira, 23 de março de 2009.

"Como poeta, acho melhor não dizer nada.
Num tempo assim, porque não temos a virtude
De corrigir atos governamentais
Já se intromete em muita coisa que agrada
A uma garota na indolente juventude
Ou a um velhinho em suas noites hibernais"
W.B.Yeats.
Descubro-me, recentemente, trabalhando em um lugar desprovido de conteúdo.
Ao menos, foi essa a justificativa açodada que foi oferecida pela direção da Casa ao extinguir o setor em que trabalho. Reformulo: essa foi a oferenda açodada para justificar os atos da direçao da Casa, ao extinguir o trabalho do setor, por pressão da imprensa. Reformulo: essa foi a direção dos trabalhos extintos pela açodada imprensa do setor da direção da oferecida Casa. Ah, deixa para lá.
Repito a minha humilde posição: não tenho absolutamente nada contra a apuração dos fatos, muito antes pelo contrário. Racionalização da administração pública, moralização dos atos administrativos, combate à malversação dos gastos dos recursos públicos, tudo isso é extremamente bem-vindo e necessário. Mas não considero razoável o atabalhoamento, a irresponsabilidade da acusação precipitada, melhor, da condenação precipitada; não considero legítima a injustiça que se faz em obediência ao medo, em subserviência à pressão. Não, naõ se corrigem erros cometendo outros muito piores. Não é assim que se faz.
Aqueles cujos nomes são execrados em público, aqueles que publicamente pela imprensa são exonerados, dificilmente terão a oportunidade e o mesmo espaço para repararem o estrago que promovem em suas biografias. Isso é injusto. Isso é covarde.
A contrapartida ao aplauso fácil que hoje recebem os executores das medidas rápidas está na consciência e na tristeza dos colegas. É impossível não sentí-las.
Não quero falar em ajuste de contas, como espetacularmente especulam por aí. Isso é baixo, é mesquinho, é do tamanho de quem incita tudo isso. Não.
Prefiro que esse ajuste se verifique em nível de travesseiro. Esse é implacável. Nenhuma vaidade é maior que o repúdio do travesseiro.
Vejo o meu chefe ir trabalhar com uma expressão sereníssima no rosto. Se guarda ressentimentos, guarda-os só para si, não os revela. Evangélico, segue os ensinamentos de seu Cristo, oferece a outra face, exerce a humildade. Dizem ser essa a fé que faz bem. Deve ser. Eu estaria me roendo por dentro.
De repente, o trabalho que ele faz todos os dias com dignidade já não tem mais conteúdo. Estás bem. Ah, já falei demais sobre isso.
XXXXXXXXX
O caderno começa hoje, e talvez o blog também. Estou meio confuso sobre o que será posto aqui e ali, com o tempo acho que resolvo. Não só isso, mas tipo, formato, assunto, etc. Tudo está para ser resolvido, o será na prática, no dia-a-dia, se houver dia-a-dia, se eu não me aborrecer com isso. Difícil ser um ponto.com.
Só espero que, com medo do caráter público do blog, eu deixe de ser intimista em meu caderno, o que provavelmente me estragaria os dois.
O problema é que há de se perder um pouco a vergonha na cara para se manter um blog, afinal ninguém se interessa em ler algo pudico, algo organizadinho, planejadinho. O que queremos ver em um blog, me parece, é algo parecido com a inconfdência, um quase-diário.
Meu medo maior é de me acumular e me atolar de tanto por fazer, acabando por não fazer nada ou por não fazer nada direito. Quem viver, verá.
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Apresento-vos desde logo a minha secretária. Melhor, em tempos pomposos, a minha Diretora de Abastecimento, Manutenção, Execução Nutricional e Apoio Veterinário. Uberlândia, que desde ontem voltou ao batente, muito a contragosto (o marido de Uberlândia não gosta que ela trabalhe, típico baluarte chauvinista latino-americano, é meu braço direito, lugar-tenente e cuida de Bandit e Lisavieta e da desordem da casa.
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Paixão do dia:
Nessa velocidade louca da informação, as paixões musicais não podem ser mesmo fiéis, elas podem e devem ser volúveis, fervorosas, absurdas e cheias de tesão. Prometo tentar renová-las o máximo possível aqui. Naturalmente, não lhes direi onde buscá-las (tem graça ensinar pirataria, se virem), mas tentarei ser o mais completo possível, hehehe.
Então, tenho tido verdadeiros orgasmos musicais ouvindo IAIN ARCHER, alemão introspectivo, meio enrustido e não-emo, cujo último álbum, "To the Pine Roots", deve ser muito bom, mas ainda não tive acesso. Porém, o seu "Flood the Tanks", de 2004, lembra muito o trabalho do Snow Patrow. Uma maravilha, vale a pena conferir. Principalmente as faixas "Running in Dreams", "A Few Conclusions" e a melhor delas, em minha opinião, "Boy, boy, boy".
Fica aí a dica!